Briga de punhais sem fio

Mais um tungado de mim mesma, do saudoso 7etc. Eu era meio baba, certeza que a culpa era das saudades do meu amor:

Livre-se agora desses óculos.

Não me interessa nada que esteja gravado nas tuas pupilas, pois isso é o que está à minha volta. Importam-me sim as coisas que vêm estampadas na tua alma, que você (pensa que) esconde enquanto se traveste com as lentes escuras. Vejo além do teu ar blasé; me interessam sobretudo os pormenores que você esconde na raiz dos cílios, incrustrados entre pêlos. Repito:

Livre-se agora da pôrra dos óculos escuros.

Arranco tuas lentes com meus dentes, pois teus gemidos me contaram que é assim que você gosta. Nem a estúpida cortina de fumaça instalada à tua volta anuvia a realidade: as portas da Rua Percepção se abrem quando meus dedos atravessam teus limites e se instalam entre seus entes mais queridos. Nada do que você pensa que esconde está fora do meu alcance: em minha mão espalmada, cabem teus segredos mais íntimos.

Pronto. Suma agora com esses óculos daqui, porque nada do que você tem cabe atrás deles e eles não projetam nada do que te falta. O que te convém está protegido em lugar seguro. Mas trata de te manter longe da senhora das chaves.

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Os Bálcãs, o Cáucaso ou qualquer outro lugar em que a música seja boa

Tenho uma coisa com o leste europeu. Ela começou em mim em 1996, quando assisti Underground, o filme do sérvio Emir Kusturica com trilha sonora do bósnio Goran Bregovic. Coisa mais doida, aquela gente desgraçada, o tempo todo metida em encrenca, se debatendo pra desenvolver alguma identidade calcada no civismo, mentira, baderna, putaria, ditadura e aquela banda insana cheia de instrumentos aparentemente incompatíveis tocando nos melhores e nos piores momentos e em todos os outros momentos.

Tem também Montenegro, esse lugar sinistro em que vc pega uma praia enquanto observa montes nevados logo ali da paisagem.

Piro muito. É tudo completamente encantador – acho isso daqui da minha cadeira, ainda não conferi pessoalmente. Só perde pro Afeganistão no meu imaginário viajante; pensando bem, acho que o Afeganistão já foi ultrapassado.  Nunca ouvi música afegã, não acredito que ela possa mexer mais comigo do que o festival melódico de trompete, cravo, violino, pianinho, coros de voz aguda, hey-heys e outros muitos instrumentos que não sei reconhecer, mas que me aquecem a alma e, com isso, conferem à música desse pessoal a posição de quase preferida no meu Winamp.

Quase porque eu sou do rock desde o dia em que o tio Carlinhos me deu o Born in the USA na mesma pilha que o Money For Nothing e o IV do Led Zeppelin. Tio Carlinhos = Penny Lane. Desde esse tempo, eu sabia que o rock não desgrudaria de mim. Me permiti algumas poucas vergonhas relacionadas aos meus hábitos musicais desde então, mas nada ameaçou me demover desse norte inquestionável que, entre outras coisas menos mágicas, me apresentou ao meu amado Subterfúgico. (Aqui eu faria uma anotação sobre aquele 22 de novembro de 1996 – 1996, que ano!, o Tijolaço no gramado do Centro Politécnico, João cabeludo de camisa de flanela, etc, etc, etc).

Mas houve um dia em meados dos anos 60 em que Dona Armênia resolveu invadir os EUA, berço do meu ritmo predileto. Se você não tem idade suficiente para saber quem é Dona Armênia, ou se andou maltratando suas sinapses durantes os últimos vinte anos, toma:

Dona Armênia fincou raízes na Califórnia, viveu a vida sobre as ondas, foi ser artista de cinema. Lá, frutificou quatro filhinhas – esqueça Gerson Brenner, Marcelo Novaes e Jandir Ferrari (o horror: não precisei do Google pra lembrar). Os quatro rapazes eram fãs de rock, mas não conseguiam se livrar das influências da mamãe em nenhum momento, mesmo quando estavam possuídos pelo espírito do mal do metal.

Serj Tankian , o band leader, tem essa coisa encapetada em si. Além das dancinhas sexy no palco, outras de suas diabruras podem ser conferidas nos episódios da sitcom Seinfeld – ele dá vida ao personagem Cosmo Kramer.

O resultado dessa queda pelo rock somado à interferência cultural materna fez as quatro filhinhas despontarem como uma banda sui generis (nenhuma relação com Charly Garcia), inconfudível de verdade, capaz de mesclar a riqueza melódica da música cigana com os arrepios de uma guitarra de metal fodida (desculpa, eu pensei em escrever irada, seria pior), sintetizadores do mal e um vocal com tendência lírica, além de ter o apanhado de letras mais desparceirado dessa vida. Lendo essa descrição, eu riria, desmaiaria de preguiça (discurso políticozzzzzz…) e pensaria “fuja, lôca”. Ainda bem que não li: me mandaram por e-mail um mp3 em 2005 (Gafa: saudades e gratidão eterna). E eu morri muito e jurei que seria a banda que eu não perderia ao vivo nem por conta da minha idade avançada, fosse quando fosse ou onde fosse. Simpatia quase amor automática.

Fato é que não perdi. As filhinhas estiveram no Brasil na semana passada. Eu fui. Nada mais será igual. Já assisti o vídeo abaixo quatro vezes desde segunda-feira. Muitos arrepios a cada play.