Por uma vida menos ordinária

– Oi, mãe. O carro de vocês está disponível?

Na – por enquanto – manhã mais fria do ano, meu impávido colosso me deixa na mão às 7h10, justo no primeiro dia dos últimos quinze em que não precisaria dirigir até a escola a 80km/h pra que a Ana fosse entregue a tempo.

– Minha filha, teu pai acabou de sair pra levar o carro na auto-elétrica.

Saio do portão do estacionamento, olho pra auto-elétrica, que fica a duas quadras da minha casa. Vejo o carro do meu pai encostando. “Ana, sebo nas canelas”. Contei rapidinho pro meu pai o que tinha acontecido, enquanto seguíamos para a Escola nos 40km/h tradicionais na marcha do pai.

– Tudo bem. Deve ser o motor de arranque, que a bateria é nova. Fazemos ele pegar no tranco na volta e deixamos na auto elétrica também.

Voltamos, paramos na porta do estacionamento. Eu de bota, o chão de brita, meio-pai me ajudando a empurrar o carro ladeira acima pra ver se a descida colaborava no tranco, o outro meio tentanto fazendo o trem tossir em segunda. Uma: nada. Duas: nada.

– Filha, acho melhor a gente desistir. Vamos trazer o cara da auto-elétrica aqui.

Muito Van Damme, insisti para que tentássemos uma última vez, sem perceber que o fôlego do pai tinha acabado antes da conclusão da primeira tentativa. A dois dedos da parede, pegou. Corri em direção à porta do passageiro e observei que o pneu dianteiro daquele lado estava fu-ra-do.

– Massa, pai: o pneu aqui tá furado. Encosta no posto ali na esquina que eu vou calibrar pra gente conseguir chegar na auto-elétrica.

Encostado no posto, o pneu muito vazio não era passível de enchimento. “Vamos colocar o estepe”, ordena o ofegante seu João, enquanto eu tento achar um real pra comprar um copo d´água e trazer de volta a vida que parece estar fugindo pela boca do meu pai.

– Pai, o porta-malas está trancado.

Eu NONCA tranco as portas do meu carro. Nenhuma delas. Porta trancada é sinônimo de vidro quebrado. Nesta ocasião, a mão do canhestro trancou o porta-malas, coisa que me obrigou a encarnar O Incrível Hulk e arrancar o estepe do porta-malas pelo banco de trás, caso não quisesse encarar novamente a dupla tranco+pneu furado. Experiência desgastante, não recomendo.

– Deixa que eu troco, pai.

Aí a terra tremeu, os ventos uivaram, choveu canivete e homem nu de pau grande. Meu pai sentiu-se humilhado, me lembrou que não era paraplégico e, AINDA ofegante e tremendo, começou o processo de tirar os parafusos da roda, enquanto eu me ocupava em remover à força a ferrugem que emperrava o macaco.

– Carla, olha aqui este pneu.

Do lado de “fora”, o pneu furado era novo. Do lado de “dentro”, SLICK. Assim, 50%-50%, parecia até proposital. Garrei o bichinho e, mais forte que um boi zebu, entrei no banco de trás, pronta para arremessá-lo ao porta-malas. No momento em que ele voou, senti aqueles fiozinhos todos da malha de aço furarem as pontas dos meus dedos. Saí do carro, examinei minhas mãos: sujeira e sangue. Solucei: primeiro, porque estive muito perto de fazer meu pai passar realmente mal; depois, de nojinho. Santos óculos escuros, que me salvam de tantas presepadas, me permitiram disfarçar a meninice no ápice da tensão daquela manhã, que mal havia começado e já tinha me exaurido.

– Pode descer o macaco.

Botei o carro no chão e corri lá atrás buscar o carro do meu pai enquanto ele dirigia o meu até a auto-elétrica. Chegamos e constatou-se que a bateria, aquela que meu pai tinha trocado “antes de você ir com ele pra Argentina” tinha subido no telhado depois de mais de três anos de trabalho dedicado. Percebi que meu pai estava melhor e segui para o trabalho.

– Te mando um e-mail assim que o Sérgio avisar que o serviço está pronto. (meu pai é cyber, xente :~)

Quatro da tarde e nada do e-mail. Achei melhor ligar pro pai e perguntar sobre o enfermo.

– Vou ligar pro Sérgio, já te ligo de volta.

Cinco horas e nada do boletim médico. Liguei pro pai novamente:

– Minha filha, você precisa se benzer.

Nos dois nanosegundos que separaram a frase do meu pai da minha pergunta “O QUEEEÊ FOI?”, um volume sem fim de despautérios passou pela minha cabeça. Não me cabe listá-los aqui porque tenho um dedo de vergonha na cara, mas a frase que veio em seguida definitivamente não estava elencada entre as opções que me ofertei:

– Largaram uma Dakota sem freios no topo da rampa da oficina e o teu carro era o primeiro lá embaixo. Tô indo lá agora ver o tamanho do estrago.

Desliguei o telefone abismada e tive que compartilhar o acontecimento com meus companheiros de trabalho e com outros dois amigos pra quem tinha contado o causo da manhã. Ninguém conseguia acreditar na continuação – o registro da conversa com um dos incrédulos segue abaixo:

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Ontem, quinze dias depois do fato consumado, meu carro foi encaminhado ao latoreiro de confiança do Sérgio, o dono da auto-elétrica. E agora eu pergunto: não te daria uma vontade louca de clicar se eu botasse um botão de doações do PayPal aqui?

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Meet the Robinsons

Eu sou uma pessoa facilmente supreendível – na mesma medida em que tenho talento para a geração de neologismos. Sou vacinada apenas contra a babaquice do ser humano, que não me espanta de forma alguma. Minha cabeleira grisalha me permite identificar a algumas jardas tipos como hare-krishnas de voz mansa que têm planos gananciosos de dominação mundial. De resto, movimentos simples de gente despretensiosa costumam me fazer sorrir surpresa, ou me encantar. Talvez o nome disso seja bobeira; como não é esta a discussão, rumemos ao próximo parágrafo.

Uma das grandes mudanças que a maternidade implantou no meu cotidiano diz respeito ao meu hábito cinematográfico. Sempre tive muito tempo para ver muitos filmes descolados – esse tempo se foi no mesmo movimento que minha placenta. A partir daí, ou mal conseguia uns minutos pra escovar os dentes, ou estava sentada assistindo à décima (não é brincadeira, não) sessão de “A Hora do Recreio” – deste um, minha filha decorou mais de 70% das falas (excelente trilha sonora, por sinal). Só assim para que fosse reaberto o horizonte do cinema infantil na minha vida, que tinha se anuviado lá pelos idos de 1982, quando fui conferir os Aristogatas no Cine Lido. Mas esse também não é o tema; desçamos agora ao seu encontro.

Boa parte da produção cinematográfica-televisiva destinada às crianças é sinistra – assim como acontecia quando você e eu éramos do tamanho de um botão. Hoje, a proporção entre o bom e o ruim se mantém; entretanto, como a concorrência aumentou um montão, existe moooooita coisa inteligente, bem sacada e divertida no mundo da petizada. Além dos impagáveis Rugrats, Save-Ums, Shreks e afins – pausa dramática – existe A FAMILIA DO FUTURO.

Calaro que você vai querer conferir o filminho depois dos bugalhos que estou plantando. Portanto, não contarei nada que não possa ser descoberto na leitura de qualquer resenha de caixinha de gelatina. O básico, que é apenas o que você precisa saber pra sair correndo atrás do desenho na maior animação, é que ele é SURPREENDENTE. É tão, mas tãaaaaaaaao surpreendente, que gerou aquele clichê ‘filha olhando pra mãe e mãe olhando pra filha na hora do ápice com as bocas abertas’. Desenho animado engraçadinho já não é novidade nessa praia; roteiros bem-sacados e originais é que precisavam estabelecer seu lugar ao sol. E é aí que montou acampamento A Família do Futuro.

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Oi, eu sou a Lizzy e você precisa me amar.

O fato de o personagem principal ser muito NERDZ e ter a coleguinha weirda mais bacana ever podem ter influenciado um pouco minha impressão, mas devem ser somados a isso os cenários magníficos, o avô mais carismático desde a Fantástica Fábrica de Chocolates e a cerejosa trilha sonora de Danny Elfman. Vem comigo, Pederneiras, e surpreenda-se.

PS: leitor anônimo avisa que digitadora desatenciosa comeu bola: o desenho está nos CINEMAS, pôrra.