Briga de punhais sem fio

Mais um tungado de mim mesma, do saudoso 7etc. Eu era meio baba, certeza que a culpa era das saudades do meu amor:

Livre-se agora desses óculos.

Não me interessa nada que esteja gravado nas tuas pupilas, pois isso é o que está à minha volta. Importam-me sim as coisas que vêm estampadas na tua alma, que você (pensa que) esconde enquanto se traveste com as lentes escuras. Vejo além do teu ar blasé; me interessam sobretudo os pormenores que você esconde na raiz dos cílios, incrustrados entre pêlos. Repito:

Livre-se agora da pôrra dos óculos escuros.

Arranco tuas lentes com meus dentes, pois teus gemidos me contaram que é assim que você gosta. Nem a estúpida cortina de fumaça instalada à tua volta anuvia a realidade: as portas da Rua Percepção se abrem quando meus dedos atravessam teus limites e se instalam entre seus entes mais queridos. Nada do que você pensa que esconde está fora do meu alcance: em minha mão espalmada, cabem teus segredos mais íntimos.

Pronto. Suma agora com esses óculos daqui, porque nada do que você tem cabe atrás deles e eles não projetam nada do que te falta. O que te convém está protegido em lugar seguro. Mas trata de te manter longe da senhora das chaves.

Os Bálcãs, o Cáucaso ou qualquer outro lugar em que a música seja boa

Tenho uma coisa com o leste europeu. Ela começou em mim em 1996, quando assisti Underground, o filme do sérvio Emir Kusturica com trilha sonora do bósnio Goran Bregovic. Coisa mais doida, aquela gente desgraçada, o tempo todo metida em encrenca, se debatendo pra desenvolver alguma identidade calcada no civismo, mentira, baderna, putaria, ditadura e aquela banda insana cheia de instrumentos aparentemente incompatíveis tocando nos melhores e nos piores momentos e em todos os outros momentos.

Tem também Montenegro, esse lugar sinistro em que vc pega uma praia enquanto observa montes nevados logo ali da paisagem.

Piro muito. É tudo completamente encantador – acho isso daqui da minha cadeira, ainda não conferi pessoalmente. Só perde pro Afeganistão no meu imaginário viajante; pensando bem, acho que o Afeganistão já foi ultrapassado.  Nunca ouvi música afegã, não acredito que ela possa mexer mais comigo do que o festival melódico de trompete, cravo, violino, pianinho, coros de voz aguda, hey-heys e outros muitos instrumentos que não sei reconhecer, mas que me aquecem a alma e, com isso, conferem à música desse pessoal a posição de quase preferida no meu Winamp.

Quase porque eu sou do rock desde o dia em que o tio Carlinhos me deu o Born in the USA na mesma pilha que o Money For Nothing e o IV do Led Zeppelin. Tio Carlinhos = Penny Lane. Desde esse tempo, eu sabia que o rock não desgrudaria de mim. Me permiti algumas poucas vergonhas relacionadas aos meus hábitos musicais desde então, mas nada ameaçou me demover desse norte inquestionável que, entre outras coisas menos mágicas, me apresentou ao meu amado Subterfúgico. (Aqui eu faria uma anotação sobre aquele 22 de novembro de 1996 – 1996, que ano!, o Tijolaço no gramado do Centro Politécnico, João cabeludo de camisa de flanela, etc, etc, etc).

Mas houve um dia em meados dos anos 60 em que Dona Armênia resolveu invadir os EUA, berço do meu ritmo predileto. Se você não tem idade suficiente para saber quem é Dona Armênia, ou se andou maltratando suas sinapses durantes os últimos vinte anos, toma:

Dona Armênia fincou raízes na Califórnia, viveu a vida sobre as ondas, foi ser artista de cinema. Lá, frutificou quatro filhinhas – esqueça Gerson Brenner, Marcelo Novaes e Jandir Ferrari (o horror: não precisei do Google pra lembrar). Os quatro rapazes eram fãs de rock, mas não conseguiam se livrar das influências da mamãe em nenhum momento, mesmo quando estavam possuídos pelo espírito do mal do metal.

Serj Tankian , o band leader, tem essa coisa encapetada em si. Além das dancinhas sexy no palco, outras de suas diabruras podem ser conferidas nos episódios da sitcom Seinfeld – ele dá vida ao personagem Cosmo Kramer.

O resultado dessa queda pelo rock somado à interferência cultural materna fez as quatro filhinhas despontarem como uma banda sui generis (nenhuma relação com Charly Garcia), inconfudível de verdade, capaz de mesclar a riqueza melódica da música cigana com os arrepios de uma guitarra de metal fodida (desculpa, eu pensei em escrever irada, seria pior), sintetizadores do mal e um vocal com tendência lírica, além de ter o apanhado de letras mais desparceirado dessa vida. Lendo essa descrição, eu riria, desmaiaria de preguiça (discurso políticozzzzzz…) e pensaria “fuja, lôca”. Ainda bem que não li: me mandaram por e-mail um mp3 em 2005 (Gafa: saudades e gratidão eterna). E eu morri muito e jurei que seria a banda que eu não perderia ao vivo nem por conta da minha idade avançada, fosse quando fosse ou onde fosse. Simpatia quase amor automática.

Fato é que não perdi. As filhinhas estiveram no Brasil na semana passada. Eu fui. Nada mais será igual. Já assisti o vídeo abaixo quatro vezes desde segunda-feira. Muitos arrepios a cada play.

Logo mais

Sem cuidado algum com métrica ou riqueza de rimas, mas com carinho.

Quando eu for bem velhinha,
Bem mais chata vou ficar.
Não tolerarei portas abertas,
Tampouco sapatos fora do lugar.

Um marido Rolando Boldrin,
Seria o companheiro ideal:
Uma viola e dois olhos azuis
Cantando as belezas do matagal.

Viver num sítio é o mínimo
Que aceito para uma velhice saudável:
Muitos cachorros, patos e galinhas
E uma bela horta, invejada pela vizinha.

Minha filha nos fins-de-semana,
Com os netos a gralhar:
Cinco dias na cozinha,
Pra, em dois, ver tudo acabar.

Uma velha de meia caída,
Cabelo armado e unha carcomida:
Quem diria: o bifão
Chegando aos dias de carne moída.

Mas não há de ser nada
Diferente do que já vejo:
Uns cabelos brancos a mais
E nenhum grande lampejo.

***

Texto que publiquei em 2004, no saudoso 7etc. Vou pescar mais umas coisas por lá pra guardar aqui; azar o seu.

Quatro filmes em seis dias

É tanta emoção atingir uma meta como esta num lar em que vive um bebê de um ano e pouco que só entende mesmo quem já teve um bebê de um ano e pouco em casa.

QUINTA – Senna – o filme:  minha memória de peixe me impede de recordar a maioria dos fatos da forma como eles aconteceram à época, então tudo o que tenho hoje são as cenas do filme. Com base nelas, afirmo e discuto com quem gosta de brigar (1 membro) que Ayrton Senna não era humano. Fé sobre-humana, talento sobre-humano, perseverança sobre-humana, moral sobre-humana. Tudo isso de lindo na pessoa somado às coisas lindas que diziam e faziam aqueles que eram próximos e mais o fator “Marley & Eu” do final conhecido da história me fizeram estrebuchar em lágrimas que me levaram a dormir e acordar com dor de cabeça. João diz que é triste, mas é bonito. Eu digo que é bonito, mas é triste. Os momentos de beleza são muito sublimes e bonitos até pela sutileza, quando em gestos ou palavras. A tristeza começa no abraço e nas palavras que o jovem Ayrton ganha da mãe na altura do segundo minuto de filme e só cresce. Tá louco, não aguento.

No mais, espetáculo pra quem curte F1, anyway. A evolução da categoria no quesito segurança é o fator mais marcante do filme enquanto documentário sobre Fórmula 1. As primeiras imagens do Senna correndo de Tolleman davam a impressão clara de que o piloto decolaria a qualquer encostada mais tensa, os carros eram muito pequenos e não havia o conceito de “cápsula de sobrevivência”, os caras corriam com parte do tronco pra fora, gaaaaá. Sério. Filho meu não brinca disso.

SEXTA – Whatever Works: não tinha o que dar errado numa fórmula que une Woody Allen e Larry David. Funcionou como um contraponto ao filme do dia anterior. Um sujeito azedo, hipocondríaco, esnobe e recalcado, que chegou a beirar o reconhecimento profissional, que empurra a vida com a barriga, eventualmente tentando se livrar dela. Dei muita risada. Depois percebi que ri porque sou uma azeda parecida com Mr. Boris e fiquei com um pouco de vergonha.

SÁBADO – WHISKY:  escrever na quarta sobre um filme visto no sábado muda tudo. Quando acabou eu descasquei. Agora controlei minha ariana, refleti e concluí que é um bom filme, que apenas não foi concebido pra ser assistido por gente com sono e relativamente embriagada. Cochilei algumas vezes, não perdi nada. A história é tão simples que, se eu botar uma linha aqui, conto tudo. Mas o filme é bem sacado em suas sutilezas, tem uma bela (feíssima) direção de arte, a edição é excelente. Me lembrou um pouco O Pântano nos momentos de leseira master.

TERÇA – EDUCAÇÃO: tive três tipos de nheconheco quando soube que um filme com roteiro de Nick Hornby concorreria ao Oscar, mas o tempo passou e esqueci. Consultando a lista de filmes desejados na loucadora, esse tava lá e disponível na prateleira, abracei. Expectativa é uma merda, mas frustração é uma das belas coisas de que a vida é feita. Frouxo o roteiro poderia ter sido escrito por mim, considerando que não brinda a audiência com qualquer coisa especial, surpreendente ou brilhante. Mas é uma boa história, a fotografia é linda, a produção e primorosa (Inglaterra anos 50, me abana) e os atores são excelentes. Não causa qualquer sensação extremada, mas é isso que quero sentir, às vezes.

Fila: um fenômeno curitibano

Talvez eu não seja a voz mais indicada pra levantar essa questão, porque sou meio obcecada pela organização em suas mais diversas manifestações. O negócio é que muitas vezes já vi gente rindo, espantando-se ou mesmo indignando-se com as filas, que (diz-se), são um  fenômeno curitibano.

Considero a fila, enquanto elemento organizador, é um ator da justiça. Eu cheguei primeiro (ou seja, porque acordei mais cedo, saí de casa antes, corri mais, moro mais perto, whatever), é justo que eu seja a primeira a ser atendida, ou servida, ou a entrar. Aceito no mesmo cenário a distribuição de senhas como substituto equivalente. Mas não consigo imaginar outra solução anticaos para resolver a equação gente X demanda. Além disso, a fila é esteticamente mais interessante do que a malcheirosa “muvuca”.

Não defendo a fila, nem recrimino quem goza dela. Só me intriga saber como nos outros pontos do planeta o pessoal se organiza quando uma porção de gente espera ao mesmo tempo pela mesma coisa.

Pomarola – agora com tempero atômico

Faz cinco dias que abri o armário (limpinho, arejado e recentemente faxinado) da despensa e encontrei dentro isso:

Na verdade, encontrei isso e muito molho de tomate com ecas brancas espalhado pela mesma prateleira: a embalagem explodiu. Fiz o que qualquer cliente lesado faria: fotografei e enviei por e-mail à Unilever na hora do almoço de quarta-feira, 23/02, com um relato detalhado e educadinho do acontecido. Pra evitar que me pedissem que mandasse esse monstro pelos Correios para análise, escrevi com todas as letras no e-mail que já tinha jogado fora porque não me atrai deixar uma parada fedida e bichada na minha casa.

Até agora, o único retorno que obtive além do robô que responde e-mails automaticamente, foi da Betania Gattai, ao meio-dia do dia 25/02. Basicamente, ela pedia para ” que caso ainda tenha o produto, sugerimos que o guarde para nos fornecer alguns dados e assim, por favor, aguarde o nosso novo contato.e Se preferir, você poderá ligar para o telefone 0800 707 0077, informar o número de seu registro (1-262408904) que consta em nosso cadastro e daremos continuidade.. Justamente o que tentei evitar sendo clara, aconteceu. Respondi nove minutos depois dizendo que, como informado previamente, joguei o troço fora. Faltou dizer que, se quisesse tratar por telefone, teria feito isso já no primeiro contato, pois o 0800 tá do ladinho do formulário de e-mail no site do produto.

Eu gosto desse molho. Ainda que prefira mil vezes aquele que eu mesma faço em casa, tem ocasiões em que o tempo urge e Pomarola resolve bem e é muito prático, além de ter o sabor menos ruim dos industrializados. Só que agora fiquei com um pé atrás, temendo estar comprando um criadouro doméstico de lesminhas ao invés de molho de tomate. Espero que se resolva.

***

PRIMEIRO UPDATE 1º/mar – progresso 0%:

Olá, Carla!

Muito obrigada por nos informar. Já acionamos a área responsável. Pedimos, por gentileza, que aguarde, pois em breve entraremos em contato.

Fique à vontade para nos contatar quando quiser, os nossos canais de atendimento estão à disposição.

SEGUNDO UPDATE 1º/mar – duas horas depois – progresso 50%:

Recebi uma ligação do SAC (desculpa, moça, não me lembro mais do seu nome). Me fizeram algumas perguntas para, afinal, concluir que deve ter havido contaminação do conteúdo graças ao surgimento de microfuros na embalagem, provavelmente durante o manuseio, armazenamento ou transporte. A moça me disse que vou ganhar um Pomarola Manjericão novo, tamo no aguardo que ele pinte por aqui.

TERCEIRO UPDATE xx/mar – progresso 100%:

Chegou a reposição, já comi, tudo certo, brigada.


Buenos Aires para bebês/crianças e mais yadda yadda

Miguel internacionalizando

Já algum tempo eu e meu consorte não fazíamos uma viagem que não fosse pra praia, destino mais prático por conta de distância curta e da garantia de diversão para a prole. Estávamos com saudades de algum programa menos roots, então juntamos essa vontade com a proximidade geográfica, promessa de relevo favorável aos passeios a pé e o câmbio sorridente e nos mandamos para Buenos Aires numa aventura muito louca de cinco dias.

Viajamos com um piá de um ano e meio a tiracolo, então era certo que parte da programação deveria estar voltada à satisfação do petiz, até porque nem o mais santo dos bebês (o Miguel, no caso, é o próprio) aguenta pacificamente doze horas sentado no carrinho circulando pelas calçadas da cidade.

Minha irmã me deu um Guia Quatro Rodas de Buenos Aires que foi um companheiro ótimo, completo de dicas para programas diversos, inclusive aqueles para as crias. Não conseguimos pesquisar quase nada na web antes de ir, mas li quase todo o guia, então já sabia o que tinha pra fazer e que bateria com nossos interesses. Temos aí três programas adequados pra quem vai viajar com uma encomendinha:

A primeira atração para o piazinho que visitamos foi o Museo de Los Niños, que fica no Shopping Abasto, o maior da cidade. O shopping é bem central e, além do Museo, a visita vale a pena para conhecer a beleza e grandiosidade do antigo Mercado Municipal de Buenos Aires. Se bobear, ainda rola gastar um troco. O espaço é enorme, lindo, colorido, diversificado e encantador. Tem muuuitas atrações, desde “simuladores” pras crias brincarem de dirigir trator e avião até uma fábrica de doce de leite, em que é possível acompanhar todo o processo de preparo do produto, passando por estação de TV e rádio. Dá pra ficar muitas horas curtindo.

O Zoo de Buenos Aires é animal (rapaz, eu adoro um trocadilho ruim). Bem sinalizado, bem organizado, plano (melhor dos predicados, neste caso), limpo e com atrações espetaculares: tem urso polar, pinguim, camelo, lhama, lêmures e outra penca de bichos que nem sei como se chamam. As jaulas (não consegui achar expressão melhor, mas não me lembro de ter visto qualquer animal que estivesse literalmente enjaulado) ficam bem próximas umas das outras, coisa que poupa as pernas (eventualmente os braços também) dos pais, e são bem espaçosas. Usando fossos, vidros e outros truques, eles deram um jeito de conseguir que os animais ficassem muito acessíveis sem que nem eles, nem os visitantes, corressem riscos. Outra coisa MOITO LEGAL é que o parque vende uma ração que pode ser oferecida para os animais. Então algumas jaulas têm um “escorregador” pra criança mandar o papá lá pra dentro e, no caso de bichinhos menores e mais pacíficos, é possível alimentá-los diretamente na boca:

Miguel jura que o bisso mordeu o dedo dele, mas é mentirinha.

O city tour no ônibus double deck com jeitão de jardineira também foi um passeio que o piazinho aproveitou. Além de dar uma geral pela cidade, tomar um sol no coco no segundo andar e depois descer pra comer um potinho no ar condicionado do térreo, o Miguel adorou o serviço de narração do passeio que pode ser ouvido por fones em até 10 idiomas. Ele passou boa parte do trajeto trocando o plug dos fones de buraco e, assim, exercitando o poliglotismo.

Outro plano que conseguimos colocar em produção foi o das compras para o guri. A Avenida Córdoba, mais ou menos a partir do número 4.000, tem umas 15 ou 20 lojas, a maior parte outlets, de roupas para crianças. Além do câmbio favorável, calhou de estarmos por lá quando o comércio estava no ritmo de promoção de verão. Ueeeeepaaaaa!!!

Cheeky – roupas para bebês metidos a elegantes, adoro. Os preços não eram assim uma Brastemp, mas as roupas eram muito, muito lindas (altos tricôs e, pra variar, mil vezes mais opções para meninas). Miguel saiu de lá com uma sunga retrô, meias 3/4 de listras grossas e com uma boina/boné daquelas que meu avô usava.

Mimo & Co: a maior, mais cara e, de longe, com o pior atendimento. As roupas não tinham nada de mais, nenhuma peça me despertou desejo. Isso somado à antipatia e cara de argentina entojada da vendedora que resolveu que eu precisava de ajuda foram fatores decisivos para eu sair de lá feliz da vida, sem nada pro meu filho. Menos um dia de berço e eu teria cuspido naquela guria.

Gimos: avesso da Mimo & Co. Preços espetaculares (compramos remeras pro piá por 19 dinheirinhos), estampas diferentonas, gente sorridente e solícita ao redor. Atóron!

Grisino: outra loja de malhas lindas, muuuito coloridas e com estampas ótimas. Os preços não eram assim de grátis e a maior parte das peças eram de ponta de estoque. Ainda assim, é possível largar facilmente uns pesos por lá. Aqui também fui meio perseguida pelo vendedor, mas ele não chegou ao ponto de me irritar.

Essas foram as lojas em que compramos. Entramos em algumas outras e passamos reto por outras tantas. Impossível conciliar sacolas, mochilas, bebê, carrinho e chuva por muito tempo. Anyway, pra quem quiser se aprofundar na arte, este site aqui foi minha principal fonte.

Pequenas observações antropológicas nadavê, mas que eu preciso registrar para poder contar no boteco:

- No primeiro dia em Buenos Aires, me chamou a atenção a inexistência de gente obesa e negra. No segundo dia por lá, resolvi levantar dados: na rua desde as 9h da manhã até as 8h da noite, vi dez pessoas gordas que não estavam nem perto da obesidade mórbida. E nenhuma negra.

- Esse esquema do pessoal com tudo em cima pode estar abraçado a dois fatores que, mui perspicaz, também observei durante o passeio. Um é que a comida, em todos os restaurantes em que estivemos, vinha com pouquíssimo sal, coisa linda de se ver. E vi na porta de uma panificadora um cartaz que explicava porque agora o pãozinho vinha com menos sal e isso era bom, com toda a pinta de campanha oficial. Fator número dois: meudeusdocéu todo mundo fuma. To-do-mun-do, desde os muito jovens até os muito velhos de ambos os sexos.

- Por falar em sexo, identifiquei apenas dois rapazes com tendência ao time de cá durante nossa estadia por lá. Ou meu radar anda meio falho, ou as bee argentinas são menos pintosas.

- Nas ruas, todo mundo é igual. Vi poucos mendigos e, fora homens de terno e ladies de tailleur, todo mundo tá vestido do mesmo jeito e aparentando viver no mesmo estrato social. Me esforcei tentando identificar ricos, remediados, pobres e publicitários e não cheguei a lugar algum. Deve ser culpa da crise, mas não parece ruim.

- O Senhor esteve comigo e não vi nenhum homem usando calça saruel – dizem que é tendença entre os machos por lá.

- A praga do sapato com um pedaço de chão embaixo não atravessou a fronteira. A enooorme maioria das mulheres por lá usa tênis ou sandália, essas com pouco ou nenhum salto.

Tô feia, mas tô na moda e, finalmente, com 1,70m.

- Aparentemente, o conceito escravizador dos cabelos lisos nem resvalou nas mulheres portenhas. Por completa incapacidade oral, não conversei com nenhuma delas, mas observei que as gatas de qualquer idade são muito seguras de si, não apenas nesse aspecto. A maior parte das cabelas fica no caminho entre o ondulado e o liso, e elas prendem os fios de todo jeito – e de qualquer jeito, ou de nenhum jeito, com convicção de que estão abafando. Apoiei muito.

- A postura tô nem aiiií se estende às pestanas, coisa da qual sou obrigada a discordar. Pelo na cara de mulher tem que ser muito bem tratado. As sobrancelhas das argentinas são horrorosas. A maioria parece nem se lembrar que elas existem; a minoria que se lembra que elas existem elabora um traçado muito bizarro nos pelos. Fosse eu da área de beleza/estética, com toda a convicção da vida abriria uma barraquinha por lá e começaria um império J Sisters na base do tango.

Brasileiro é jeca

Quase dou razão às poucas caras de cu com que fomos recebidos pelo caminho por vendedores/motoristas/garçons. Raras vezes estivemos no mesmo ambiente que gente brasileira que não me fizesse sentir vontade de obrigar meu estômago a me engolir de vergonha. “Ai, que delícia, tem Císar Salad”, “Oi, só tem molho branco, não tem molho alfredo?”, nego correndo abraçar mercadoria assim que entra na loja e volta de ré com ela no colo até o guarda-volumes pra aí sim guardar sua bolsa, camiseta amarela com bandeira brasileira bordada com lantejoulas fazendo conjunto com óculos de sol de BBB e sandália com pedaço de chão grudado, gente gritando com a tripulação do voo e dizendo que “aquilo tudo era uma palhaçada” porque a aeronave apresentava problemas técnicos (entendo e solidarizo com cagaço, mas não compactuo com grosseria). Enfim, uma graça de pessoal. Não sei se turistas de outros países se conportam da mesma forma, até porque me restrinjo a observar os que são de mesma origem que eu, pra poder julgar e condenar. Gente, que vergonha.

Banho de gasolina

ISSO É MUITO SÉRIO.

Fui abastecer meu carro ontem. Parei do lado da bomba e fiquei olhando para o além, como toda mulher faz (homem gosta de descer do carro, né?). Pois bem. Passou um tempo, me apareceu um frentista “Duhhh, a bomba escapou.” Pensei com meus botões: “Beleza. Deu aquela babada na boca do tanque, o tio vai passar um paninho.” Aí que ele pegou aquele trapo xexelento que usam pra limpa parabrisas e começou a esfregar em toda a lateral do carro, teto e capô. Eu permaneci do meu assento, pensando no quanto estava atrasada e no volume sinistro de coisas que tinha pra fazer. Ele acabou de esfregar o pano, me deu a chave, vazei.

Hoje cedo cheguei na garagem e olhei pro capô, altos respingos de cor fosca. Cuspi, esfreguei, não saiu. O mesmo no bagageiro e no teto. Fui no posto, pedi o gerente, não tinha chegado, liguei há pouco, ele foi atencioso e disse que vai mandar polir meu carro “pra ver se sai” (mandei polir o carro há 20 dias, depois de já ter jurado pro Senhor que não colocaria mais nenhum centavo na aparência dele enquanto a minha vaga na garagem do edifício continuasse sendo a que é. Deus castiga).

O que eu aprendi com isso?

1. Deus castiga.
2. Gasolina mancha.
3. Descer do carro enquanto ele é abastecido não serve só pra dar uma desamassada no saco.

Da arte de transformar grafite em diamante

Quem não se lembra do tempo em que só existia caixa de bombons Garoto e que ela pesava generosos 500g tá perdendo tempo aqui neste blog de vó.

Pois bem. Os bombons eram praticamente os mesmos que vêm nessa caixinha mirrada atual: Alô Doçura, Opereta, Serenata de Amor, Crocante, Caribe e assim por diante. Além desses, a caixa também trazia os “Heróis da Resistência”, aqueles bombons que permaneciam lá dentro por dias e dias depois de deflagrado o início dos trabalhos de comilança: os detestados bombons de frutas. Banana, Ameixa, Abacaxi.

Normal era deixar esses sabores exóticos na caixa, esquisita era a criança que gostava deles.Eu era uma criança esquisita: coisa mais sem graça da vida bombom de chocolate só com chocolate, curtia mesmo um azedinho de fruta dentro. E curto até hoje, tanto que grunhi de alegria quando, no começo do ano, a Garoto anunciou a volta dos bombons de frutas com novos sabores e numa embalagem só para eles.

Só eu sei quanto sofri pra achar essa parada aqui no interior. Mandei e-mails pra Garoto (que duas vezes respondeu sem esclarecer minha dúvida, sensacional), andei por supermercados que não fazem parte de minhas rotas, procurei em mercados pela web. Nádegas, até o dia em que entrei no Festval da Manoel Ribas e, sem querer, encontrei a caixinha (lhinda, por sinal).

Comprei, abri e comi os 14 bombons no caminho entre o mercado e a minha casa. Tem até recheados de amora e damasco, coisa fina. Agora, fina mesmo foi a estratégia da firma de Cachoeiro do Itapemirim: repaginou um produto meio desprezado que passou tempos longe do mercado, meteu numa embalagem diferentona e tá cobrando algo em torno de R$ 60 pelo quilo dos bombons desprezados. Só bobo, ou gorda, pra pagar preço de Kopenhagen por chocolate de linha industrial. Eu sou ambos.

Pé de moleque caseiro

Pode me agradecer, visitante eventual que caiu aqui graças à indicação de São Google em busca de uma receita de pé de moleque. Recomendo a todas as inimigas que façam hoje mesmo a primeira receita dessa guloseima que aparecer pela frente:


Antes! %-)

Depois. :-S